[STORYTELLING TIPS] Chamando atenção sem subir na cadeira

No finzinho do ano passado, fui convidado para representar numa cena importante — a aparição de uma divindade — no encerramento da primeira temporada do Projeto Vem Jogar RPG, na Fábrica de Cultura.

Todo Poderoso (2003)

“Meus parabéns, você foi promovido.”

Dentro da maioria das narrativas de alta fantasia medieval, as divindades exercem um papel central: são o pináculo que sustenta e fortalece os conflitos cervicais do enredo. O mundo nasce através da interação dos deuses e todas as principais tramas são fruto das relações entre eles. Ou seja, aos olhos da platéia, as divindades parecem muito complexas de serem interpretadas.

Parecem, só que não.

A maioria das mitologias às quais estamos acostumados — greco-romana, egípcia e nórdica — lidam com panteões de divindades cujos aspectos são familiares a todos nós. Por serem muito estereotipadas, terem objetivos tão específicos e vantagens e desvantagens tão características, as divindades se tornam personagens muito fáceis de dramatizar. Esse verbo — o dramatizar — é um dos melhores amigos de todo narrador. Significa “incutir drama”, “tornar comovente”.

Eu tenho fama de narrador exagerado. Enquanto descrevo uma cena, eu gesticulo, falo alto e chego até a subir nas cadeiras. Não é a toa que chamo muito a atenção enquanto narro — completamente envolvido na história, eu dramatizo com tudo que tenho a meu dispor: corpo, voz, trama, personagens. Tá certo que passo muita vergonha depois, quando a empolgação vai embora, mas na hora da narração eu me deixo levar pelo enredo e isso ajuda muito a manter a história interessante e a incentivar a platéia de jogadores a interagirem com a trama.

“Chover no molhado”

Aceitei o convite do pessoal da Fábrica para representar Æon, o deus do caos, no encerramento do primeiro arco narrativo. Foi inesquecível.

Æon, o deus do caos

“O caos é o tempero da vida. E a ordem… é o nêmesis.”

No final da cena que participei, todos estávamos de boca aberta com a profundidade e sinergia da cena que havíamos conseguido representar. Uma sombra eterna se insinuava, uma divindade se manifestava, um guerreiro dos deuses colocava sua fé em cheque, um grupo de heróis cumpria seu destino. Foi mágico e inspirador como só uma boa partida de RPG pode ser.

Uma autêntica experiência narrativa.

Uma experiência dessas é algo tão indescritível e inexplicável que ninguém que não tenha participado é capaz de entender. Uma mistura de improviso, coincidência e altruísmo capaz de transformá-lo num verdadeiro fã de RPG — você entende na prática o motivo de pessoas se encantarem em ficar contando histórias e rolando dados em torno de uma mesa durante horas a fio. Arrancamos palmas uns dos outros. Foi incrível.

Na saída, depois que o jogo já tinha encerrado, a Thais Petúnia, uma narradora iniciante da Roleplayers que havia assistido tudo de fora do jogo (e até filmado alguns trechos!) me cutucou, elogiou muito minha atuação e perguntou: “Como você consegue envolver todo mundo desse jeito?” A resposta pulou da ponta da minha língua: “Ah, Tata! Arrasar com uma divindade é fácil né?” Ela fez cara de interrogação, aí completei: “o difícil é fazer isso sem poderes cósmicos fenomenais, interpretando um ser normal, um transeunte, contratante ou mesmo um personagem comum”.

Um épico na gaveta de meias

A dramatização é uma das principais chaves para criar histórias memoráveis e envolventes.

Ela pode transformar um simples cavaleiro andante num verso de profecia, promover um simples dono de estalagem a um ícone marcante e decisivo dentro de um enredo. Boa dramatização pode fazer um épico narrativo numa gaveta de meias.

Jim Henson e os Muppets

A gaveta de meias é só para narradores épicos.

Esse envolvimento é bem mais fácil quando se sabe como dramatizar. Aqui nessa coluna da Roleplayers, vamos seguir nas próximas semanas com dicas práticas de como trazer mais dramatização para sua narrativa.

  • Como criar um cenário narrativo que favoreça a dramatização?
  • Como tornar os personagens mais fáceis de dramatizar?
  • Como tecer uma trama de enredo que privilegie a dramatização?

Essa e muitas outras perguntas serão respondidas aqui! Fique ligado, assine nossas publicações por email e deixe aqui nos comentários suas dúvidas, dicas e sugestões para serem incluídas nas próximas postagens da Storytelling Tips.

Author: Bruno Cobbi

Lidero a Roleplayers na transformação de RPG em negócio. Gosto de videogames, luta-livre e histórias bem contadas. Reciclo meu lixo, consumismo, stress e ideias. Adoro bom-humor, gente alto astral e cheiro de chuva no asfalto. Odeio bicho engaiolado, telefone tocando e pessoas que odeiam coisas demais. Nunca acho que tenho amigos o bastante e sei que o mundo é do tamanho que cada um consegue enxergar.

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5 Comments

    • Gratidão, parceiro. Aguardo suas dicas de dramatização para enriquecermos ainda mais essa postagem.

  1. UAU!!! Sempre me perguntei como fazer uma divindade! Mas visto por esse ponto parece bem possível! Vou tentar na minha próxima campanha!

    • Oi Lery,

      As primeiras peças de teatro eram encenações dos conflitos entre as divindades. Uma breve pesquisa sobre o Teatro na Grécia Antiga pode te encher de idéias de como representar uma divindade. Outra referência bacana mais moderna (cujo contraste com essa pesquisa clássica é bem interessante) é Sandman, do Neil Gaiman.

  2. Gostei muito do site, baixei a aventura as duas faces de nerul de outro post pra deixar guardada e utilizar em alguma campanha. Continuem o ótimo trabalho haha!

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  1. [CRÍTICO!] A narrativa em The Last of Us | Roleplayers - […] de um jogo longo para termos uma experiência narrativa excelente. Pensando nisso, passei a pensar muito mais no tema…

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