[RPGLOGIA] A caça às bruxas RPGistas (ou “O cenário nacional do RPG no começo do século XXI”)

O CENÁRIO

Em 2001 o RPGista brasileiro viveu um ano crítico, tanto em sucessos quanto em fracassos.

Num feito épico da Editora Devir, recebemos a terceira edição em inglês do famoso Dungeons & Dragons – o D&D, considerado o primeiro e mais popular RPG do mundo – antes mesmo do lançamento oficial nos EUA. A Devir viria a publicar a versão traduzida ainda no mesmo ano.

Esse também foi o ano em que a trilogia O Senhor dos Anéis e a saga de Harry Potter debutaram nos cinemas de todo o mundo, abrindo caminho ao público de massa para as histórias de ficção, ainda com tão poucos adeptos no Brasil.

Infelizmente, 2001 também ficou marcado por tentativas marcantes de vinculação do RPG a crimes violentos (que você pode conferir no artigo de Marcelo Del Debbio ao final da página).

A mídia preparou a fogueira, algumas igrejas fizeram a caçada e aproveitadores decretaram a condenação

Na época em que um caso de assassinato em Ouro Preto ganhou a grande mídia, que relacionou o crime a um jogo de RPG, houve participação ativa de educadores, psicólogos, membros de instituições religiosas e outros especialistas em debates diversos onde eram discutidas as vantagens que os jogos de RPG propiciavam a seus participantes. As acusações sobre os males desta atividade falavam que tais jogos incentivavam o estudo de práticas ocultistas e conspiratórias — muitas vezes até heréticas — ou a violência.

Para salgar ainda mais essa batata quente, jogos de cartas colecionáveis — como os famosos Magic: The Gathering e Yu-Gi-Oh! importados e traduzidos também pela Devir — acabaram entrando na dança, tendo seus jogadores envolvidos nas discussões, normalmente no papel de réus.

Ao menos uma vez por semana podia-se ligar a televisão num canal de significativa audiência e encontrar um apresentador rasgando cartas de algum dos jogos mencionados, vociferando que aquilo não era coisa inspirada por certa divindade ou mesas de discussão sensacionalistas opondo religiosos, sociólogos, educadores e autores de RPGs com temas voltados a público maduro.

Era uma bruxa sendo queimada por programa.

Nesse período, o clima entre os RPGistas e a mídia sensacionalista era comparado à Inquisição do século XII. Para quem adorava interpretar personagens medievais, esta era uma chance de ouro, protagonizando como os hereges de sua época.

OS PERSONAGENS

Principalmente através da internet — que passou a se popularizar nas residências justamente nessa época — jogadores e familiares se uniram em comunidades, fóruns, chats e outras redes sociais pré-Facebook (dinossauros se lembrarão das conversas por ICQ e MSN, nos primórdios da revolução dos Instant Messengers) para expressar sua revolta contra as acusações frequentes, compartilhar histórias boas e más sobre a recepção das notícias por seus amigos e familiares e praticar militância contra instituições religiosas em defesa de seus hobbies. Chegou a haver certo clima de preconceito contra os jogadores de RPG em algumas comunidades influenciadas por líderes religiosos.

Os RPGistas tiveram de lutar com espada e magia contra as trevas da ignorância

Foi um período fértil para artigos e teses discutindo o hobby e suas vantagens como ferramenta de integração social e até pedagógica. Muitos educadores levaram o RPG para salas de aula, colocaram alunos para interpretar personagens durante momentos históricos do mundo, como o descobrimento do Brasil, a Guerra dos Cem Anos e tantos outros. Infelizmente poucos acadêmicos levaram a discussão adiante.

O TESOURO E O XP

A batalha foi vencida pelos jogadores de bom coração cujos projetos e dedicação ao RPG tocaram a massa interessada e revelaram o RPG como um hobby social saudável que, além de todos os benefícios de uma atividade lúdica analógica como alternativa de lazer ao domínio dos jogos eletrônicos, ainda convida seus jogadores a ler mais do que o de costume, considerando-se que os RPGs mais tradicionais oferecem dezenas de opções de livros para se conhecer mais sobre suas regras e possibilidades para construção de histórias e personagens, incentivando a criatividade do leitor/jogador.

Uma informação relevante é que, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Pró Livro em 2011, cada brasileiro lê menos de 4 livros por ano – para referência, o Chile leu 5.4, Portugal 8.5 e Espanha 10.3 – e um jogador do citado RPG Dungeons & Dragons lerá pelo menos 3 livros com mais de 200 páginas cada, chamados “livros básicos”, com as regras do jogo e ferramentas para suporte à narrativa das histórias. Fora uma gama de outras opções publicadas, como romances e revistas relacionadas ao hobby, podemos até dizer que o RPG é uma “escola de leitores”.

Uma SENHORA contribuição para algo tão banal como um “jogo de hereges”.

Depois de muito suor e sangue, a recompensa da Fantasia

Entendidas muitas coisas, a “Caça às Bruxas RPGístas” cessou em meados de 2002 e os jogadores de RPG puderam voltar seus esforços à rolagem de dados, narração de histórias e criação de mundos fantásticos. É certo que muitos guerreiros perderam forças nesse combate, mas encontramos muitos outros valorosos aliados e tantos outros autores novos ganharam terreno para, uma década depois, abrirem espaço para uma nova onda de publicações independentes, no que se pode interpretar, neste paralelo histórico, como um Renascentismo, quando algumas estruturas feudais foram quebradas e se dá maior valor ao homem como criatura social. Mas esta é uma outra história para uma outra ocasião…

POR TRÁS DO ESCUDO DO MESTRE

Para este artigo foram consultadas as bibliotecas do Berço Imaculado, as runas do Extremo Norte, ouvidas as parábolas do Olho Cego de Gaia e enganado um Dragão da Casa Branca, mas você não precisa subir muito de nível para saber mais.

O artigo de Marcelo Del Debbio pode ser conferido aqui para entender mais da situação que levou à “Inquisição RPGística”.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 3 (ano de 2011) está disponível numa livraria mágica perto de você publicada pela editora da Imprensa Oficial a um precinho MUITO camarada (ou em versão digital, na íntegra).

A revista Nova Escola, da editora Abril, apresentou um artigo de Manuela Biz que trata do uso do RPG como ferramenta pedagógica, leia aqui.

Se quiser se aprofundar mais na ciência por trás do RPG, vale conferir também o site Narrativa da Imaginação e conhecer seus projetos que incluem a publicação de artigos científicos sobre RPG na revista Mais Dados.

NUNCA desista da Fantasia!

NUNCA desista da Fantasia!

 

O autor deste artigo se envolveu com Fantasia desde pequeno e com RPG em 2001, lutando bravamente contra a Inquisição enquanto bebia da sabedoria de mestres que rolaram o primeiro D&D, testaram 7th Sea ainda na praia e que faziam dos acessórios na mesa um show à parte.

Defende o hobby como uma “experiência de desenvolvimento social, científico e psicológico” e rasga os rótulos que a sociedade judaico-cristã ocidental tanto aprecia colar nos homens.

É autor do cenário de fantasia Terras da Lenda e dedica sua vida aos livros e à liberdade.

Contribuiu para este artigo também Bruno Cobbi, diretor executivo da Roleplayers e sobrevivente da Inquisição RPGista.

Author: Bruno Masters

Livreiro romântico, profissional de marketing editorial e contador de histórias. Um guerreiro que, como o Vento, afaga como brisa ou derruba como tempestade. Luta pelo sonho de ser um bom pai e acredita que não há melhor momento que o infinito de nossas curtas vidas.

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1 Comment

  1. *** ZIG, LIZ e PESSOAS DA ADMINISTRAÇÃO NÃO EXCLUAM ESSE COMENTÁRIO, DEIXEM ELE AQUI PENDENTE ***

    Oi Ibarra,

    Ótimo post. Faz tempo que estou esperando abordarmos essa parte mais histórica do RPG aqui no site e acho que essa ideia do RPGLOGIA tem muito pano pra manga — e não tinha lugar melhor pra começar. Parabéns.

    Jogo RPG desde 1995, mas só comecei a trabalhar com RPG no XI EIRPG, justamente em 2001, muito por militância mesmo. Lembro de uma camiseta minha que ficou famosa: no peito estava escrito “Eu jogo RPG…” e nas costas “…e NÃO mato ninguém!” em letras garrafais Arial Black. 🙂

    A Daemon e a Devir exerceram papéis fundamentais na luta contra o preconceito. Tudo nos bastidores, bem longe das câmeras. Não é a toa que, mesmo tanto tempo depois, o artigo do Del Debbio e a linha de publicações acadêmicas da Devir ainda são as principais referências no assunto.

    Eu vivi de perto todos esses episódios que você cita. Ainda como integrante do d3system, cheguei até a liderar mobilizações em combate ao preconceito. Lógico que, de lá pra cá, minha opinião sobre o assunto evoluiu bastante, mas acredito que ainda haja bastante coisa pra esclarecer.

    Parabéns pelo artigo. 🙂

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