[RESENHAS] Desvende os segredos narrativos do Tolkien em “O Poder Mágico da Palavra”

Por muitos e muitos anos, a obra escrita pelo ilustre professor doutor John Ronald Reuel Tolkien foi aclamada, ovacionada, premiada e recriada. Porém, quem de nós, meros mortais, nunca parou e se perguntou: “Puxa! Por tantos anos o professor criou e por tantos anos sua obra ficou. O que será que o professor tramou?”. Quem de nós nunca questionou o motivo de tanto sucesso dessa magnífica obra que é a Saga do Anel? Grande parte dessa resposta pode ser obtida numa leitura do livro O Poder Mágico da Palavra, publicado pela Devir.

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Contemplando o Mar

Uma ilustre companheira tupiniquim, a professora doutora Rosa Sílvia Lopez, dedicou um bocadinho de seu tempo e de sua grandiosa energia durante sua tese de doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP), “O Senhor dos Anéis e Tolkien: O Poder Mágico da Palavra” para estudar, vivenciar e, por que não dizer, contemplar o mar.

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O que foi?

Ahhhhhh, tááááá! Você não entendeu nada… Hehehehe, nem poderia. Eu começo falando de Tolkien e, de repente, sem mais nem menos, coloco você no mar? Você deve estar em casa na frente do seu computador olhando pra tela com um ponto de interrogação enooooormmmeeee em sua cabeça se perguntando: “O que esse cara tem na cabeça? Ele tem problema, né?”.

Não, meus caros companheiros de sociedade, o mar é praticamente o personagem principal das narrativas de Tolkien e é isso que a nossa companheira FFLCHiana vem nos apresentar em sua ilustre obra.

Literatura, escrita e leitor navegando juntos

Para Tolkien, o ato de leitura deveria ser sempre comparado à uma tentativa de “contemplar o mar”. Segue um recorte de um conto, utilizado pela doutora em seu trabalho, que exemplifica bem o que Tolkien pensava sobre o diálogo existente entre a literatura, a escrita e o leitor:

“Eu expressaria a industriosidade completa em ainda outra alegoria. Um homem herdou um campo no qual havia um acúmulo de velhas pedras, parte de um salão mais antigo. Das velhas pedras, algumas já haviam sido usadas para construir a casa em que ele habitava atualmente, bem próxima da casa de seus pais. Do restante ele tomou algumas e construiu uma torre. Mas chegando seus amigos, perceberam imediatamente (sem se darem ao trabalho de subir os degraus) que aquelas pedras pertenceram anteriormente à construção mais antiga. Então demoliram a torre, não com pouco esforço, para procurar relevos e inscrições escondidos, ou para descobrir de onde os antepassados distantes do homem obtiveram o material de construção.

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Alguns suspeitando de um depósito de carvão sob o solo começaram a cavar procurando por ele, e esqueceram-se mesmo das pedras. Todos disseram: ‘Esta torre é muito interessante’. Mas também disseram (depois de demoli-la): ‘Que confusão está aí dentro!’ Mesmo os próprios descendentes do homem, dos quais poder-se-ia esperar que levassem em consideração os propósitos dele, ouviu-se que murmuravam: ‘Era um sujeito tão esquisito! Imagine-o usando estas pedras velhas apenas para construir uma torre absurda! Por que não restaurou a antiga moradia? Ele não tem senso de proporção?’. Mas do topo da torre o homem conseguia olhar para fora, sobre o mar”.

Esse era sempre o objetivo de Tolkien: erguer uma ampla torre fortificada de pedras antigas para fazer com que seus leitores contemplem a imensidão infinita do mar, o próprio inconsciente humano, fonte de todos os nossos mais profundos sonhos e desejos, fonte de nossas angústias e tristezas, de nossas tranquilidades e alegrias. O mar como símbolo de tudo aquilo que é desconhecido e inexplorado (e, por que não dizer, inexplorável) na alma humana.

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A Palavra como artefato Mágico

Segundo o estudo de Rosa, Tolkien atingiu tantos leitores e atravessou um século inteiro para virar obra cinematográfica porque teve um cuidado imensurável ao tecer as palavras no papel. Filólogo como era, um apaixonado incorrigível pelas Letras, ele iniciou tudo na “palavra”.

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A base de todo o seu trabalho (e, quando eu digo isso, entendam apenas como o ponto de partida de tudo) é o conceito “cellar door”, que é considerada , nada mais nada menos, a expressão foneticamente perfeita no inglês por sua “fluidez bucal”. Tal expressão, então, nos causa a sensação de conforto e curiosidade quando pronunciada, dada sua anatomicidade. Nos causa identificação e segurança.

É exatamente a partir daí que Tolkien começa sua genialidade, segundo Rosa, utilizando-se de tal conceito para criar todas as palavras inusitadas com as quais nos deparamos em sua obra, tais como, Miruvor, Mitheithel, Ondoher, Finarfim, etc. a sonoridade é tão diferente, sinuosa e perfeita para nossos ouvidos que nos traz à ânsia ancestral da humanidade pelo desconhecido, nos desperta a vontade de perscrutar por terrenos inexplorados, mesmo que tortuosos, apenas para poder contemplar o mar.

Instaurando a Narrativa Ritualística

E assim segue O poder mágico da palavra, esmiuçando parte a parte da obra de Tolkien, nos revelando os “segredos” do grande “mago das palavras”, suas referências, anseios, buscas, medos e os significados etimológicos dos nomes criados, a característica ritualística de sua narrativa e a proximidade com os rituais xamânicos, a simbologia de cada personagem dentro da obra, dentre outras pequenas minúcias que nos saciam (aos amantes da obra de Tolkien, claro) de um conhecimento extremamente necessário.

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Daqui em diante, deixo para você, companheiro de sociedade, desvendar, preparar o terreno e construir sua própria torre para contemplar o mar. O Senhor dos Anéis e Tolkien: O Poder Mágico da Palavra é um trabalho de extrema sensibilidade por parte da Professora Doutora Rosa Sílvia Lopez que nos traz muitos segredos sobre a obra de Tolkien.

Cabe a cada um de nós, amantes da obra desse autor, construir nossa própria jornada rumo ao mar.

Se eu falasse mais que isso, estaria interferindo em sua jornada, caro companheiro. Portanto, encerro aqui meus cânticos, esperando ter atingido o coração e alma de cada um que aqui perderam alguns minutos de seu precioso tempo para contemplar essa minha pequenina obra escrita.

Pronto! Acabei de construir a minha torre. E você?

Author: Leandro "Siegfried" Caldarelli

Narrador Fundador e Produtor da Roleplayers. É ator e diretor, apaixonado por RPG tanto quanto pelo teatro e sempre gostou muito de narrar em eventos. É entusiasta de tech art e sommelier de cervejas. Adora HQ's, Mangás, Anime, jogos eletrônicos (principalmente antigos) e jogos de tabuleiro. Narrativista e adepto do roleplay ao extremo, suas mesas geralmente são super imersivas, fazendo os jogadores mergulharem no universo da fantasia.

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