[RESENHAS] Perdendo a Cabeça no Japão Antigo com Blood & Honor

Algo que eu sempre defendi em rodas de discussão sobre RPG é a criatividade e o experimentalismo.

Gosto de criar novos mecanismos de jogo, ideias imersivas de ambientação, utilização muito metajogo — que é quando um objetivo do jogo depende do raciocínio do jogador e não das habilidades do personagem. Acredito que o mestre deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para ambientar e envolver o jogador na sua narração, facilitando muito a possibilidade do roleplay (interpretação) acontecer com muito mais verdade e verossimilhança.

Afinal, RPG é sobre isso!

É sobre contar histórias que estamos falando quando jogamos RPG.

E essas histórias só têm sentido e são atraentes quando são dinâmicas. Boas histórias oscilam o tempo todo, nos colocando em meio a um turbilhão de emoções. Portanto, sempre fui defensor de que os jogadores têm tanta ou até mais responsabilidade sobre a narração de uma boa história do que o narrador, pois é da intensidade de seu roleplay que nascem as oportunidades de gancho narrativo.

Acho que o senhor John Wick (autor do clássico Legend of the Five Rings) ouviu minhas preces, pois traduziu todo esse meu sentimento e crença dentro de um único jogo de sua criação: Blood & Honor.

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Viajando pelo Japão Feudal

Trazido em versão brasileira pela Redbox Editora, Blood & Honor é, em resumo, um jogo de tragédia samurai.

É situado em meio à decadência do Japão feudal, em um mundo onde ser samurai está “fora de moda”. Entretanto, todos ainda devem respeito aos Daimyo (senhores feudais) e seus samurais (oficiais). Um mundo dominado pela dicotomia dinheiro e poder VS. honra e lealdade. Vale ressaltar aqui, que John Wick é impreciso e criativo historicamente em seus textos , ou seja, cria seu “próprio” Japão feudal para que seus propósitos e mecânicas de jogo alcancem seus objetivos.

Portanto, aos puristas do universo cultural japonês, o autor já pede desculpas logo nas primeiras páginas e recomenda que se utilizem da regra de ouro e criem suas próprias ambientações se assim acharem necessário. Assim como John, não irei me alongar nesse tópico pois não se faz necessário. Apenas direi mais uma coisa, citando o autor:

“A literatura samurai é repleta de histórias de homens e mulheres forçados a escolher entre o amor e o dever, o dever e a honra, a honra e a honestidade. São escolhas como essas que você encontrará neste jogo. Se você prefere um jogo em que seu personagem sempre toma a decisão correta, sempre amplia suas habilidades, sempre surge cheirando a rosas…

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 …não diga que não lhe avisei. Aliás, é meu nome que está na capa, você deveria saber com o que está se metendo.

Hai Sensu!”

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Entrando na Psiquê do Samurai

A ideia principal de John é que você interprete um samurai, ou seja, um oficial de um Daimyo. Cada Samurai tinha uma especialidade e enfoque de trabalho, ou seja, uma classe, e tinha que cumprir com esse dever mesmo que isso lhe custasse a sua vida, vida essa que não vale nada sem o Daimyo vivo.

O interessante é que John não se limitou em colocar os jogadores para criarem seus personagens. Antes disso, para que as diretrizes de seu samurai tomem rumo, é necessário criar um Clã!!!

Isso mesmo, meus caros! John Wick fornece regras para criar seu próprio clã de samurais, do qual o seu samurai fará parte.

A partir da criação de seu clã é que você vai criar seu samurai, com sua classe, suas convicções, habilidades e história de vida.

Fichas

Giri ou Dever: nossas conhecidas classes

O jogo lista seis Giri, que são os seis tipos de oficiais mais comuns entre os samurais:

  • Hatamoto (General): o senhor dos exércitos;
  • Karo (Senescal): uma espécie de administrador do feudo;
  • Kaihaku (Executor): exatamente o que a palavra diz, é o “carrasco”, aquele que mata quando é preciso e executa as leis;
  • Oniwaban (Espião): realiza as estratégias de coleta de informações ofensivas e defensivas do clã;
  • Onmyõji (Conselheiro Espiritual): aquele que tenta compreender o universo como um todo e guia o Daimyo em seu caminho;
  • Takumi (Cortesão): é o artista responsável por todas as formas de entretenimento cultural do clã, além da etiqueta e refinamento da corte;
  • Yojimbo (Guarda-Costas): é o protetor pessoal do Daimyo;

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Não me aprofundarei muito na criação de personagem para que não fique um texto imenso e chato de ler, mas segue daí escolhendo as Virtudes, que são tidas como os atributos que conhecemos em outro jogos, os aspectos, que traduzem um pouco do que o samurai tem como convicção e valores pessoais.

Honra e Glória traçam a reputação, depois Vantagens e Desvantagens e por último, a idade do personagem que, para aqueles que quiserem se aprofundar, verão que é parte importantíssima dessa criação.

E como ficam as rolagens de dados?

Bom, chegamos aqui na parte mais interessante desse jogo: o sistema louco e insanamente genial criado pelo John. Eu demorei um pouco pra compreender e assimilar, mas quando caiu a ficha, minha nossa! É simplesmente genial!

Em Blood & Honor, as rolagens de aleatoriedade não são feitas para decidir entre acerto ou erro.

Hein?!

“Para tudo! Vc bebeu, rapaz? Como você chama de genial um sistema de jogo que não decide entre acerto ou erro?! Tá maluco?!”

Calma, meu bom rapaz! Você já vai entender e vai se surpreender, tenho certeza.

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Blood & Honor é baseado em um sistema de apostas.

Você soma algumas informações de sua planilha e terá uma determinada quantidade de dados que poderá ser jogada para resolver aquele Risco que está assumindo. Dependendo da situação você vai apostar contra o narrador ou contra outro jogador. Ambos escolhem o número de dados dentre os que têm direito que vão utilizar para a rolagem e o número de dados que irão apostar.

Agora é que vem a parte mais interessante: vencedor da rolagem ganha o direito de narrar a cena! Não você não entendeu mal, caro leitor, o jogador pode narrar a cena se for bem sucedido em uma rolagem. As apostas servem para os que perderam a rolagem modificarem detalhes na cena, mudando um detalhe para cada dado apostado.

Não é simplesmente genial?

Eu sei que existem diversos narradores hardcore por aí que irão dizer:

“Nossa, mas isso é um absurdo! Como assim eu passei horas criando uma obra prima de jogo na minha casa pra chegar na hora da mesa e o jogador narrar a cena?”

É aí que mora a grande sacada. O sistema de Blood & Honor foi criado pensando na possibilidade do narrador ser poupado de ter que criar páginas e mais páginas de aventuras. É necessário apenas criar alguns momentos e deixar que as lacunas sejam preenchidas pelas ações dos personagens.

John Wick descreve que durante os playtests houveram sessões inteiras que foram levadas apenas pelos jogadores. Imaginem só como será divertido errar intencionalmente quando achar necessário para a cena?! Ou então usar um dado de aposta para mudar aquele detalhe crucial ao rumo da história?!

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O que é mais importante: a honra do clã ou do samurai?

Não podia faltar o elemento principal que dá título ao jogo: a honra.

Um recipiente é preenchido a cada início de sessão com marcadores representando os pontos de honra que cada personagem possui. Quando um jogador acha necessário, ele pode retirar 1 ponto de honra por rolagem dessa reserva para trocar por 1 dado a mais ou por um detalhe na cena. Contudo, a reserva é coletiva! A honra de cada samurai depende diretamente da honra do Clã!

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Existem muitas outras características peculiares em Blood & Honor, como o fato de uma Katana matar com apenas um golpe, regras para jogar com um Ronin, regras para resolver cenas de massacre e cenas de guerra, entre muitas outras peculiaridades. Não irei me aprofundar demais.

Resumidamente, Blood & Honor é um jogo versátil, desafiador e apaixonante para aqueles que curtem um bom roleplay aliado à muita ação e emoção. Boas horas de diversão garantida sem ter muito trabalho de ficar criando páginas e páginas de histórias em casa, narrador, pois os jogadores criarão a história junto com você.

Fico por aqui, Roleplayers, recomendando imensamente mais esse maravilhoso jogo do mestre John Wick.

E aguardem, outros posts sobre ele virão.

Seguem abaixo algumas recomendações de filmes e animações para aqueles que desejarem se aventurar pelo coração dos samurais. Os filmes do diretor japonês Akira Kurosawa são recomendados no apêndice do próprio livro de John Wick.

RUROUNI KENSHIN – THE MOVIE

RUROUNI KENSHIN II (ESTRÉIA MUNDIAL EM 2014)

YOJIMBO – AKIRA KUROSAWA

RASHOMON – AKIRA KUROSAWA

NINJA SCROLL

Author: Leandro "Siegfried" Caldarelli

Narrador Fundador e Produtor da Roleplayers. É ator e diretor, apaixonado por RPG tanto quanto pelo teatro e sempre gostou muito de narrar em eventos. É entusiasta de tech art e sommelier de cervejas. Adora HQ's, Mangás, Anime, jogos eletrônicos (principalmente antigos) e jogos de tabuleiro. Narrativista e adepto do roleplay ao extremo, suas mesas geralmente são super imersivas, fazendo os jogadores mergulharem no universo da fantasia.

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10 Comments

  1. O John Wick compartilhou a resenha de vocês, com elogios ao material, etc.

    Parabéns mais do que merecido.

    • Brega, eu nem preciso dizer o quanto me sinto lisonjeado em saber que o mestre John apreciou e compartilhou a resenha que fiz. Muito obrigado por compartilhar essa informação conosco! E mais obrigado ainda por acessar, apreciar e compartilhar nosso trabalho.
      Ao mestre Johh, caso ele leia esse seu comentário:
      “Master, I’m freaking insanous honrated by receiving this congrats by you! Thank you, master John, thank you! You make this little poor apprentice very happy, today. February 03 was my b-day. This news was the most ever awsome b-day gift i received ever after! Thank you, master John! Thank you!”
      E muito obrigado a todos da Roleplayers que proporcionaram que esse momento ocorresse! Muito obrigado por me acolherem e me darem essa oportunidade. Vocês são demais!!!!
      #vairoleplayers

  2. Gostei da resenha, acho o jogo maravilhoso, mas ainda não foi popularizado…uma pena. Às vezes tenho a impressão que os jogadores estão sempre procurando cenários prontos, com npcs, itens, ganchos etc…tudo já mastigado, e fogem de jogos onde a ideia é a criação. Parabéns.

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