1º EMRPGistas: Precisamos mesmo combater o preconceito também no RPG?

Ocupado com o Corujão RPG que vai de vento em popa lá na Geek House (graças a Bahamut! \o/), foi só hoje que eu acabei descobrindo que vai rolar o 1º Encontro das Mulheres RPGistas aqui em São Paulo!

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Fui pesquisar e, lendo por cima, vi que isso virou um rebuliço porque a organização escolheu um critério polêmico para selecionar voluntárias: não aceitam homens como narradores. Somado ao fato que existem atividades onde apenas mulheres poderão se expressar, o negócio pegou fogo e virou uma discussão com mais de quatrocentos comentários — que já acabou por intervenção da moderação da comunidade onde estava rolando.

Quem o pouco nunca agradece…

Entre ânimos exaltados, vi muita gente questionando “a necessidade de um evento como esse”.

Sério, Brasil?! ^~

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O machismo já foi combatido no cinema, quadrinhos, videogames e até nos animês e mangás. Será que precisamos mesmo levar a discussão sobre preconceito pra dentro do cenário de RPG nacional?

Será que estamos “exagerando” quando abrimos espaço para uma minoria tão evidente discutir um tema tão importante quanto o preconceito?

Chega de retórica.

Pau que nasce torto…

Nascido dentro no subgênero da fantasia medieval, fruto da junção dos wargames com o universo do Mestre Tolkien, o RPG se contaminou com uma visão bem babaca que a ficção de Espada & Magia provocou em muita gente e deixou de lado uma parte importante da obra do Grande Mestre.

Em suma, o RPG herdou bastante machismo dessa linha narrativa por onde se desenvolveu.

 

A mulher pobre e indefesa jogada aos pés do grande e poderoso heróis que luta contra os servos das trevas. E acredite, eu peguei bem leve aqui.

A mulher pobre e indefesa jogada aos pés do grande e poderoso herói que luta contra os servos das trevas.

Acredite, eu sou fã de Conan e peguei bem leve escolhendo essa ilustração acima. Há muito mais entre o céu e a terra do que julga essa vã ilustração.

Não vou perder meu tempo aqui atacando a ficção de fantasia medieval, porque essa discussão já está evoluindo bastante. Nasceu machista, numa época onde a revolução da isonomia nem sonhava existir e, acredite ou não, as coisas estão mudando bastante dentro da discussão dessa linha narrativa.

E como anda o preconceito no cenário do RPG?

Nos primórdios do século, na época das jurássicas listas de discussão e fóruns de RPG, essa bola foi levantada muitas vezes — quem não se lembra do rebu que foi a cosplayer de Niele no Animecon 2010?

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Inverter a situação provoca reflexão, mas não muda muita coisa.

Entretanto não me lembro de termos chegado tão perto de um movimento tão concreto quanto esse do site Minas de Moria.

Estou orgulhoso. 🙂

Léu com créu…

RPG é um jogo de ficção cooperativa. No RPG, contamos histórias em grupo e trabalhamos em equipe para compor uma experiência narrativa única, feita com pedacinhos dos desejos de todos os envolvidos para o faz de conta dos jogadores.

A matéria-prima desse jogo é a imaginação dos seus participantes. Muita gente se orgulha disso e já testemunhou que o RPG serve para ajudar a superar limites, como timidez, inibição e vergonha. Por uma série de motivos, muitas dessas pessoas — podem me incluir nessa — dividem um passado em comum que originou essas dificuldades a serem superadas: sofremos muito preconceito.

Nossas jornadas de combate ao preconceito nos unem!

Muitos de nós, jogadores de RPG, fomos vítimas de preconceito. Abuso, bullying, discriminação, hostilidade, implicância, intolerância, rejeição, segregação, racismo, sexismo e outros monstros que muitas vezes até acabaram por nos aproximar desse jogo que nos ajudou a derrotar esses fantasmas — sim, muitos de nós se beneficiaram através do RPG para superar traumas causados por essas experiências terríveis.

Com o passar do tempo e a superação dos traumas, ás vezes acabamos deixando esse passado negro de lado na hora da diversão. Ou pior, acabamos recriando cenas terríveis, muito parecidas com essas.

Infelizmente, na maioria dessas recriações, não somos nós que estamos no papel das vítimas.

O maior problema é acreditarmos que somos imunes.

Por muitos de nós já termos sofrido — e, felizmente, superado — o preconceito, acabamos achando que ficamos imunes à prática dele.

É como se acreditássemos que somos incapazes de protagonizar uma crueldade parecida com aquela que foi feita contra nós e isso não é verdade. Sou um exemplo desse engano também.

Mea culpa

Eu costumo divulgar os eventos mais importantes da Roleplayers pelo meu perfil pessoal no Facebook. Não é tudo que vai pra lá, afinal é um perfil pessoal, diferente do canal oficial da empresa (que é esse aqui, onde estamos agora).

Lá no meu perfil pessoal, eu converso com meus amigos, exponho meu ponto de vista particular, religioso e filosófico e faço piadas com os mais chegados. Piadas que a gente acha que são inofensivas, né?

Pois é.

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Eu já apaguei essa idiotice. Não por covardia e sim pra assumir meu erro babaca e não ajudar a alimentar a babaquice contra as mulheres no cenário de RPG nacional.

Foi uma piada babaca. Eu tenho vergonha, mas foi.

Dessas piadas bacacas que a gente vive fazendo sem perceber em rodas de amigos com peitos, bundas, “gostosas”, “viados”, “travestis”, “pretos”, judeus e outras “besteirinhas” cotianas, sabe?

Besteirinhas UMA OVA!

É nessa babaquice cotidiana que mora o perigo.

Primeiro foi um amigo que me avisou.

Desses valiosos, que te chama de canto pra dizer que o seu zíper está aberto ou que você está com mau hálito.

“Ei cara, pode não pegar bem um cara com o peso que você tem nesse cenário fazendo piadinha desse tipo”.

Me botou pra pensar. Eu — homem, hétero, branquelo, trintão, classe mérdia e casado — por mais que tenha sofrido preconceito, não passo nem perto de ter propriedade pra falar do assunto. Que dirá fazer piada com isso.

E veja: foi um cara que me avisou! Homem, hétero, branquelo, trintão, classe mérdia e casado como eu. Eu tive vergonha, lógico! Mas foi marcante. Levei o caso pro nosso grupo de narradoras, as Mestres Fêmeas.

Quase fui morto a pauladas.

Ou pior.

Ou pior.

Eu já tinha cansado de ouvir os relatos delas sobre assédio e preconceito nas mesas. Já estou careca de testemunhar e ajudar inúmeras vezes a despistar babacas que não sabem a hora de respeitar limites nos nossos eventos…

Mas eu não conseguia acreditar que eu tinha cometido o mesmo erro.

Em outra escala, óbvio, mas a falha de caráter foi a mesma. Elas me provaram isso.

Obrigado meninas.

Liz, Bárbara, Thais e Mayara me ensinaram um bocado sobre isonomia, cultura do estupro e conscientização.

Esse post é o meu pedido de desculpas a todas as pessoas que, de alguma forma, se sentiram ofendidas com a piada idiota que fiz.

Essa piada não reflete nem de perto a minha verdadeira opinião pessoal sobre a importância das mulheres no cenário de RPG nacional nem sobre a importância de qualquer ser humano em qualquer situação ou lugar do mundo.

Todos merecemos respeito. Se eu faltei com ele diante de você, me desculpe. Se você faltou com ele diante de qualquer outra pessoa, faça o mesmo.

E não pare por aí.

Mesmo saído de uma madrugada de trabalho, estarei lá na Terra Magic pois quero prestigiar essa iniciativa.

Nossa luta é uma só: RPG e preconceito não combinam!

A Roleplayers não tolera nenhum tipo de preconceito, seja dentro ou fora da nossa equipe.

Quando eu soube do evento, quis ajudar e divulgar e procurei a Roleplayers para isso. Ao receber autorização para usar nosso canal oficial, fiz questão de trazer essa questão pessoal pois acredito que essa oportunidade pontual oferece o contexto que necessário pra matar três coelhos com uma fireball só:

  1. Ajudar na divulgação de um evento inédito, extremamente pertinente e que tem tudo pra ser MUITO bacana);
  2. Me desculpar com o público da empresa pela babaquice no meu perfil pessoal;
  3. Mostrar um exemplo muito comum de como essa cultura de estupro, tão nociva e tóxica, pode se propagar sem a gente perceber no nosso cotidiano.

Depois do puxão de orelha pela piadinha idiota, tenho acompanhado ainda mais de perto essa questão do combate ao preconceito no RPG. Fico feliz em ver que isso está evoluindo muito bem lá fora, tanto na cena independente quanto no mainstream.

A melhor ilustração de bardo, sem decote, sem bunda, direto do PHB do D&D 5E. ;-)

A melhor ilustração de bardo até hoje, sem decote, sem bunda, direto do PHB do D&D 5E. 😉

No meio de uma batalha tão importante, o Brasil pode sim ganhar relevância se esse evento for conduzido com tanta seriedade quanto promete. Estarei lá tanto como Bruno Cobbi (pessoa física) quanto como diretor da Roleplayers (pessoa jurídica).

Também divulguei o evento para toda a equipe e acredito que algumas das nossas narradoras participarão conosco.

Fica claro que todos os membros da equipe são livres pra expor seus testemunhos e opiniões pessoais, mas que eles não refletem a opinião da empresa.

O canal oficial da Roleplayers é esse site. Qualquer outra opinião emitida fora daqui, por qualquer pessoa que seja, é de responsabilidade da pessoa que a emitiu e não reflete o ponto de vista da empresa.

E aí? Vai ganhar XP ou ficar só olhando?

Se você ainda se questiona sobre a necessidade levar o combate ao preconceito para o RPG, me desculpe, mas você precisa se informar.

No Brasil e no mundo, as mulheres sofrem violências cotidianas o tempo todo, em todos níveis, do mais cruel ao mais sutil. Abra seu coração pra ler sobre a cultura do estupro (e leia sempre mais de um ponto de vista), selecione e acompanhe canais feministas com os quais você simpatize (lembre-se, nunca apenas um), preste atenção e perceba que essas atrocidades acontecem o tempo todo, e acontecem mais perto do que você imagina.

Saiba que, por mais que você ignore, vai precisar lidar com perpetradores e vítimas dessa cultura tórrida tanto no seu Facebook quanto na sua mesa de jogo — talvez até dentro da sua própria casa.

Mais do que isso, cedo ou tarde, você pode acabar num desses dois papéis.

Não seja babaca. Esteja atento. Prepare-se. Prestigie o evento.

Author: Bruno Cobbi

Lidero a Roleplayers na transformação de RPG em negócio. Gosto de videogames, luta-livre e histórias bem contadas. Reciclo meu lixo, consumismo, stress e ideias. Adoro bom-humor, gente alto astral e cheiro de chuva no asfalto. Odeio bicho engaiolado, telefone tocando e pessoas que odeiam coisas demais. Nunca acho que tenho amigos o bastante e sei que o mundo é do tamanho que cada um consegue enxergar.

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