[STORYTELLING TIPS] Como usar uma Festa de Natal na sua narrativa?

Não é de hoje que os narradores aproveitam os eventos do mundo real pra incrementar suas narrativas — sabe quando cai aquele temporal e, de repente, despenca um toró no cenário de RPG também? Ou quando tá aquele tempinho frio, que acaba transbordando para as páginas do seu enredo? #quemnunca

Isso ajuda a dar um clima bem mais vivo à narração e aumenta a imersão no cenário da narrativa — com o perdão do trocadilho, no caso do exemplo do toró. 😉  #tuduntz

E as nossas maiores festas anuais? Porque não usar as nossas comemorações mais marcantes pra dar aquele clima nas suas sessões de jogo?

Party Inception

Os povos ancestrais europeus serviram de base para a maioria dos RPG’s medievais, como o D&D, O Um Anel, Tormenta e Tagmar. Esses povos eram firmemente regidos pelo ritmo da natureza. As estações do ano tinham uma influência muito grande na vida das pessoas, governando desde as atividades mais simples (como plantio, colheita, pecuária e pescaria) até as mais grandiosas (casamentos, coroações, ritos fúnebres e grandes viagens). Ninguém queria perder toda uma colheita pro outono ou que as chuvas de verão arruinassem o casamento do barão.

Por causa desse ciclo universal provocado pelo clima, todo mundo coordenava esforços por uma necessidade mútua: sobrevivência. Cada etapa do ano tinha seus desafios particulares, culminando com a superação do inverno. A vitória sobre cada uma das etapas merecia uma festa, e foi dessas festas que nasceram muitas das comemorações que celebramos até hoje. Existem registros que alguns destes festivais são literalmente pré-históricos, mas a Roda do Ano, dos celtas, ainda é comemorada até hoje e é uma ótima fonte de pesquisa para ideias de narrativa.

Durante o rolecast Natal & RPG, comentamos muito a importância de incluir festivais na sua narrativa — além de ajudar a sedimentar a ambientação do seu cenário, aumenta a verosimilhança do enredo e oferece oportunidades dos personagens interagirem com elementos culturais que os arcos narrativos mais heróicos não alcançam.

Nesse post, vou dar exemplos para as suas narrativas:

Conceito do Natal Medieval

Aqui no Brasil celebramos quase tudo invertido por conta de uma mistura de sincretismo colonialista europeu com o clima local. A parte ruim é que isso gera uma confusão conceitual danada. A boa é que isso enriqueceu muito o nosso repertório cultural — como para os meio-elfos, sabe? 😉

O Natal e a morte

Pela época que acontece no hemisfério norte, o natal nasceu como uma celebração de inverno. Aqui no Brasil, herdamos essa festa na mesma data europeia, mas ela acontece na “época errada” — nosso inverno vai de junho a setembro, e não de dezembro a março, como no Velho Mundo —, e isso explica o motivo daquele monte de neve, renas e velhinhos agasalhados no meio do verão tropical.

Algodão na moda praia #quemnunca

Algodão na moda praia #quemnunca

No inverno, celebrava-se a morte. Nessa época, tudo que não se recolhe, morre. Seja planta, animal ou gente. Até hoje, o inverno ainda é uma época arriscada para os seres vivos. As temperaturas baixam muito e, com elas, nossa imunidade. Nas cidades, a infra-estrutura alivia um pouco o desconforto, mas as doenças ainda se espalham com mais facilidade. Nos lugares mais ermos, é preciso se proteger das geadas e, em zonas temperadas, o gelo é um desafio enorme. Se hoje em dia, com tantos avanços tecnológicos, esse perigo ainda existe, imagine antigamente, quando tudo era bem mais rudimentar e selvagem.

O natal e a morte

“Vim entregar seu presente, mero mortal…”

Na era medieval, as pessoas trabalhavam o ano todo para conseguir sobreviver ao inverno. A estocagem de suprimentos, o reforço nos abrigos e o estreitamento dos laços de comunidade eram as ferramentas mais importantes para superar esse período onde a morte caminhava solta no mundo.

Ninguém comemorava nada nessa época, então o recolhimento forçado era aproveitado para relembrar os mortos e, muitas vezes, por uma urgência fúnebre coletiva — muitas pessoas morriam nessa época, a maioria crianças e velhos, ou seja, o inverno funcionava como uma espécie de seleção natural.

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Decoração de natal.

Na nossa cultura ocidental sul-americana, eu diria que a comemoração-chave para o espírito original dessa época seria o dia de finados, que, por outra trapalhada no calendário brasileiro, acaba acontecendo dia 2 de novembro, no meio da nossa primavera.

“Winter is comming…”

Durante o inverno não havia trabalho, festas ou viagens. Até mesmo as guerras paravam. O inimigo de todos era um só: o frio.

Final da primeira temporada de Guerra dos Tronos com os caminhantes brancos

De nada por essa sinapse.

No inverno as noites são mais longas — a expressão “horário de verão” faz mais sentido agora? —, o sol é fraco e desaparece muito cedo. Quase todos os povos antigos se angustiavam com isso e, em suas mitologias, acreditavam que esse período de frio cortante se dava por um afastamento do deus do sol.

A Volta do Deus Sol

Essa divindade ocupava um papel de protagonista em praticamente todos os panteões. O Sol é o símbolo máximo da vida. É ele que alimenta as plantas e oferece a luz e o calor para o mundo, permitindo que a maioria dos animais saia em busca do pão nosso de cada dia. Cientificamente, extraímos dele vitaminas básicas que nenhuma outra fonte oferece. Não é a toa que o deus sol era (era?) popular em muitos panteões.

"sun god" por byron007

Papai Noel?! É você?

 No inverno, alguns acreditavam o deus sol estava ocupado. Ás vezes era uma guerra num mundo distante, mas ele quase sempre estava envolvido em outros afazeres importantes ou tinha se afastado para recuperar suas forças. Alguns acreditavam que ele tinha morrido mesmo e estava ressuscitando — soa familiar? — e que, assim como a certeza que após a noite escura virá um novo dia, todos sabiam que, cedo ou tarde, o deus sol voltaria com mais uma primavera a tiracolo.

Quetzacoatl

Quetzacoatl: “Prima Vera? Ah! Primo não é parente.” 😉

Muitas dessas religiões solares observavam o sol de verdade no céu. Quando ele se tornava o menor possível, celebravam o “bebê sol”.

Presépio da Coca-Cola

E os três reis magros fugiram da concentração de sódio em Jerusalém.

 

O natal na sua narrativa

Uma pesquisa sobre a fênix lendária ou sobre a origem do mito da cegonha vai enche-lo de ótimas correspondências para personagens e narrativas baseadas nesse festival. Conhecer o Yule ou a Saturnália também vai render bons exemplos concretos sobre festivais para o seu cenário

Concept is the king

Via de regra, parta de rituais para comemorar a certeza do retorno do calor e despertar a esperança que mora nos corações mesmo durante as épocas mais sombrias. O conceito do Natal é uma festa que “comemora” a chegada do inverno e prepara o coração das pessoas para as angústias inevitáveis e iminentes.

"Um pé no saco..."

“Um pé no saco…”

Numa narrativa de fantasia medieval, são comemorações fraternais e sem extravagâncias. Abuse do clima de preocupação e antecipação de luto, com governantes e líderes preocupados em fortalecer os laços comunitários com trocas de mercadorias entre seus súditos e regimes de racionamento na comida. Pesquise os deuses relacionados com a morte e o frio no cenário que você narra. Nessa época, eles ficarão mais fortes e seus seguidores estarão mais ativos. Ao mesmo tempo, lembre-se de movimentar as igrejas dos deuses do Sol, ok? Nessa época, os animais e bestas selvagens também estão se retirando para lutar pela sobrevivência, mas existem muitos predadores que podem estar “atrasadinhos”, buscando um estoque poupudo de carne para colocar no freezer.

Explorar masmorras não fica mais fácil no frio...

Numa narrativa moderna, vale usar e abusar de referências reais para criar verossimilhança. Inúmeras seitas macabras podem estar tentando se aproveitar de um portal energético para colocar o mundo em risco. Você pode se fartar de pesquisar mitos e lendas para encher dua crônica de Mundo das Trevas de referências assustadoramente reais. Deixando de lado essa parte mais sobrenatural, o rush de compras também pode ser assunto pra uma narrativa de espionagem mais concreta, onde hackers ou espiões estão tentando se aproveitar ou frustrar o lançamento do próximo iCoisa, por exemplo. Pra uma narrativa moderna situada aqui no Brasil, lembre-se do nosso sincretismo e das nossas referências particulares — não há natal brasileiro sem shows do Roberto Carlos, por exemplo. Só isso já pode dar o colorido que você precisa para o seu enredo.

"Então é Natal..."

Numa narrativa futurista, pode ser a hora dos personagens se lembrarem de uma velha tradição do passado, ou de recriarem um costume do seu planeta natal, adaptando-a às suas novas condições. Isso é particularmente interessante para campanhas distópicas ou pós-apocalípticas. Para as novelas espaciais, uma distribuição de presentes entre a tripulação alienígena da sua astronave seria bem legal não? Que tal a recriação de uma celebração de natal na sua colônia interplanetária? Isso pode oferecer oportunidades ótimas para situações únicas de interação entre os personagens, despertando flashbacks e incentivando exploração do background dos personagens. Quem sabe a civilização alienígena que os embaixadores personagens estão visitando também tenha seu próprio ritual de inverno? Ou os personagens testemunhem que essa época funciona de forma diferente no planeta recém-descoberto — talvez como em 30 Dias de Noite.

A passagem de Luke por Hoth foi marcante por um bom motivo.

A passagem de Luke por Hoth foi marcante por um bom motivo.

E nas suas narrativas?

Aproveite os comentários para descrever situações legais que você tenha narrado nos seus enredos baseado nos temas de natal. Podem ser cenas, personagens ou locais que você criou para suas narrativas ou ideias que surgiram ao ler esse texto, queremos te ouvir e enriquecer esse artigo com mais exemplos bacanas de como usar o Natal numa narrativa.

Author: Bruno Cobbi

Lidero a Roleplayers na transformação de RPG em negócio. Gosto de videogames, luta-livre e histórias bem contadas. Reciclo meu lixo, consumismo, stress e ideias. Adoro bom-humor, gente alto astral e cheiro de chuva no asfalto. Odeio bicho engaiolado, telefone tocando e pessoas que odeiam coisas demais. Nunca acho que tenho amigos o bastante e sei que o mundo é do tamanho que cada um consegue enxergar.

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