Como Jogar Dungeons & Dragons Me Ajudou a Ser Mais Conectado, Criativo e Compreensivo!

O poder não vem apenas do dinheiro ou de levantar pesos. Segundo o escritor Ethan Gilsdorf, você pode ganhar forças e habilidades que você nem conhecia jogando RPG de fantasia.

Créditos da ilustração: Cristina Daura

Você faz parte de um grupo de aventureiros e sua missão é resgatar um príncipe que desapareceu perto de um castelo abandonado. Quem você quer ser durante essa missão? Um bravo anão guerreiro? Um inteligente mago humano? Um habilidoso arqueiro elfo? Um furtivo ladino hobbit?

Conforme vocês se aproximam das ruínas vocês avistam uma criatura. Verde e resmungona, com quase três metros de altura e carregando um gigantesco machado. É um troll, ele está acorrentado ao portão de entrada. O que você faz? Investe em sua direção e ataca? Atira uma bola de fogo? Procura outro caminho furtivamente? Tenta barganhar com a criatura? Ou alguma outra coisa?

Eu cresci numa cidade isolada de New Hampshire antes da internet, smartphones e das mídias sociais. Como a maioria das crianças eu jogava board games como Risk, Stratego, Mousetrap, Batalha Naval, Detetive, Banco Imobiliário.

Então, em 1974 conheci o Dungeons & Dragons, ou D&D — um jogo que mudou tudo. O D&D trouxe regras para interpretação de fantasia num mundo de espadas e magia. Meu primeiro contato com ele foi em 1979 com 12 anos e isso explodiu meus miolos. Meus amigos e eu jogamos muito.

Essas imagens são de um vídeo caseiro que filmamos em 1981 e deve dar uma ideia de como é o jogo. Temos mapas, livros de regra, com nomes como Livro dos Monstros e Livro do Mestre, e muitos dados poliédricos estranhos. Você também vai perceber Mountain Dew e Doritos — provisões chave para uma aventura como essa.

E, como podem ver, não há tabuleiro. O D&D é jogado na sua imaginação. Cada jogador é um personagem com certos poderes e fraquezas, representados por estatísticas numa planilha. Por exemplo, você pode ter Força 16 (de um total de 18), que é bom, ou um Carisma 3 (de um total de 18), que não é tão bom assim. Cada personagem também possui um nivel level — se você for nivel level 2 você ainda é inexperiente — assim como um nome, personalidade e habilidades especiais. Um dos jogadores, o narrador ou “mestre”, inventa a aventura para os outros e cria o mundo, a história , criaturas, mitos e lendas. O narrador também funciona como uma espécie de árbitro-divindade do jogo.

Como um dos jogadores, você “joga” descrevendo o que seu personagem quer fazer. “Eu pergunto ao taverneiro quando foi a última vez que ele viu o príncipe”, você pode anunciar, ou então “Eu ataco o troll com meu machado.” A rolagem de vários dados e o julgamento do narrador determinarão o sucesso ou falha de suas ações. É como ler O Senhor dos Anéis — mas ao longo da leitura você precisa escolher o caminho de cada personagem. A melhor parte é que ninguém sabe o que vai acontecer em seguida. Aventuras podem durar semanas ou mesmo anos.

Quando eu comecei a jogar D&D eu estava lidando com muitos dos meus próprios monstros. No mesmo ano que eu descobri o RPG, minha mãe sofreu um aneurisma cerebral que a deixou física e mentalmente incapacitada. Ela ficou imprevisível e se comportava de forma estranha. Ela me assustava. Eu já era um introvertido incorrigível e sua enfermidade me fez sentir ainda mais impotente, ainda mais aprisionado no labirinto da adolescência. O jogo permitiu que eu escapasse dos meus medos e navegasse num mundo de fantasia como outra pessoa — alguém com poder e atitude.

Eu jogava D&D incessantemente, todas as noites de sexta durante cinco anos da minha adolescência. Então parei por 25 anos. Quando voltei a jogar com meus quarenta anos, percebi uma coisa. O RPG me moldou. Me deu uma confiança poderosa, ferramentas poderosas. Ele me salvou.

Mas eu acredito que os jogos de RPG de fantasia têm o poder de beneficiar qualquer um. Trago aqui cinco formas como o D&D e o poder da fantasia podem te ajudar a combater os perigos e desafios da realidade — e fazê-lo uma pessoa melhor na vida real.

1. Você fará parte de um time.

Diferente do Banco Imobiliário, nos jogos de fantasia você não é um burguês imobiliário implacável tentando levar seus companheiros jogadores a falência ao construir hotéis por toda Terra-Média, da Vila dos Hobbits até Mordor. Embora você possa completar algumas tarefas por conta própria e tomar decisões individuais a maior parte da história aventura requer que você se aventure com o grupo, trabalhando juntos (ou em equipe) para completar missões.

Colaboração significa reconhecer o poder do trabalho em equipe e da diversidade. No D&D, humanos não podem viajar por aí sozinhos, assim como nenhum outro grupo— sejam elfos, anões, magos, ladinos ou guerreiros. Vamos voltar à cena do troll. Digamos que seu personagem escolheu lutar contra o monstro. Seu time têm uma gama de habilidades às quais recorrer — magias, proezas de batalha, poderes curativos, lábia. Cada membro do grupo têm seu papel.

O mesmo acontece no mundo real com seus colegas de trabalho, sua família ou outros grupos quando você precisa finalizar um projeto no trabalho, planejar um jantar elaborado, começar uma startup ou planejar uma viagem. Todas as pessoas do grupo contribuem. As lições do D&D são: “celebre as diferenças”, “tudo bem precisarmos uns dos outros” e “eu te dou cobertura”.

Esse crescente sentimento de camaradagem — de sentir-se parte de algo maior que si mesmo — é algo poderoso. Quando criança eu não tinha coordenação para esportes, mas conheci a experiência do espírito de equipe através do D&D. (Quem precisa de futebol quando você pode atirar bolas de fogo com seus dedos?)

2. Você aprenderá a resolver a situação que precisar

Além de proporcionar a emoção da vitória, esses RPGs também te ajudam a resolver problemas. Vamos dizer que você ataca o troll e o mata. Você pilha o corpo e encontra um pedaço de papel com uma estranha mensagem escrita nele: “E E C D C E”. O que aquilo poderia significar? Você não sabe, mas decide guardar o papel, pois ele pode ser útil mais tarde.

Seu grupo entra na masmorra embaixo do castelo. É escuro e assustador. Felizmente, vocês trouxeram tochas, corda, ganchos e uma varinha que atira repelente de aranhas gigantes. A vida é como essa perigosa masmorra — você precisa estar preparado e não deveria vagar por aí sem as ferramentas para se livrar de problemas como o MacGyver. Por exemplo, você não dirigiria um carro sem um estepe. Ou quando vai passear com o cachorro você sabe que precisa levar algumas sacolinhas a mais.

De volta à masmorra, vocês descobrem um longo corredor com um estranho padrão no seu piso. Seu adorável, mas desajeitado anão dá o primeiro passo. Vocês escutam um click e flechas são disparadas na sua direção da escuridão — é uma armadilha! Então você lembra do papel, poderia ser algum tipo de código? Talvez ‘E’ signifique esquerda, ‘C’ centro e ‘D’ direita? Você atravessa o corredor dando passos nessa ordem e voilà, está do outro lado, intacto.

Contudo, existe mais do que uma única solução para esse quebra-cabeça — e para a maioria deles — tanto no D&D como na vida. Você pode desarmar a armadilha ou rolar uma pedra pelo corredor para ela servir de escudos contra as flechas. O ponto é, RPG ensina a inovar. Ele treina a mente a resolver problemas, criar conexões inesperadas e a descobrir caminhos alternativos pela escuridão.

3. Você crescerá como personagem.

Resolver problemas também requer perseverança. Você deve começar no primeiro — e mais baixo — nível level. Você é fraco com apenas quatro pontos de vida. Têm uma espada enferrujada e sabe usar uma magia que cria… Panquecas! Tenha paciência, conforme você ganhar pontos de experiência sua habilidade e força crescerão. Você faz isso assumindo riscos que te levam à recompensas.

Vamos voltar ao troll. Você quer pular das paredes do castelo em cima dele e acertá-lo com uma rocha? Vá em frente. O jogo permite que você assuma riscos e falhe num ambiente seguro. Claro, seu personagem pode sair gravemente ferido ou mesmo morto (se seu narrador for particularmente maldoso). Entretanto, essa é uma chance que você têm no jogo: seus companheiros podem apoiá-lo caso você fracasse, diminuindo o risco. Se você morrer, um clérigo pode te ressucitar e então você poderá tentar de novo.

Escute esse nerd de 17º nível aqui, pois tudo fica ainda melhor – você pode e vai se curar das derrotas, dos contratempos e do constrangimento! Se na vida real eu sou tímido e estúpido, no jogo posso ser um anão sábio e corajoso. Eu posso praticar essa coragem e sabedoria nesses mundos de fantasia antes de estar pronto para ser corajoso e sábio na vida real. Jogar D&D me deu forças para confrontar meus arqui-inimigos na escola e minha mãe em casa, assim eu pude viver e lutar mais um dia.

4. Você sentirá empatia pelos outros.

Outro passo importante na construção de personagem é o desenvolvimento de empatia e tolerância. Você e eu somos pessoas diferentes então como encobrir o espaço vazio entre nós dois? A interpretação cria essa ponte.

Num jogo de fantasia você habita a pele de outra pessoa. Você pode escolher ser alguém como você ou pode ser alguém completamente oposto. A narrativa imersiva do jogo te força a interagir com outros (elfos, trolls, dragões, taverneiros) todo o tempo. Num mundo de fantasia você não anda por aí assumindo que pessoas — e criaturas — vão parecer, agir e pensar como você. E você só pode imaginar suas dificuldades e experiências. O narrador pode dizer “a dragonesa fala que certamente as pessoas da cidade é que estão a difamando.” ou “Você entra na clareira e vê um pequeno grupo de goblins vestidos como os que quase mataram seu grupo na masmorra sob o castelo. Todavia, esses parecem ser crianças. O que você faz?”. O D&D é o mecanismo perfeito para treinamento de empatia, pois nos permite enfrentar situações que testam nossa moral e ética dentro da pele de criaturas diferentes com diferentes culturas e experiências, como um elfo, um anão ou um orc.

Graças ao jogo, eu posso olhar para qualquer um — seja o cara chato no trânsito, o colega de trabalho mandão ou minha mãe doente — com um pouco mais de empatia, compaixão e amor.

5. Você aprenderá a usar um dos maiores talentos de todos: sua imaginação.

Esse jogo não funciona sem narrativa e imaginação. Veja este mapa que desenhei nos anos 80:

Foque nele por um segundo. Eu aposto que sua mente está viajando agora. Você deve estar se perguntando coisas como: que lugar é esse? Quem vive aí? Quais as histórias? O que acontece agora?

Enquanto filmes, séries e videogames oferecem narrativas e mundos imersivos, eles não engajam a imaginação da mesma forma que o RPG. As ferramentas brutas do jogo — seus mapas, dados, livros e miniaturas — te forçam a completar os espaços vazios. Você precisa trazer sua imaginação à mesa para completar a figura.

As pessoas costumavam sentar ao redor da fogueira contando histórias umas às outras, mas hoje em dia a maioria de nós não passa de consumidores das narrativas de milhões de dólares de Hollywood. Me parece que a narrativa foi tirada de nós.

Os RPGs de fantasia trazem de volta o poder da narrativa para nós. O D&D despertou minha imaginação e acendeu meu interesse por tudo, desde geografia à línguas, história à poesia. Me fez querer criar, querer ser um contador de história e um construtor de mundos. Indo além, me fez imaginar um mundo melhor.

O que nos leva à mais poderosa magia desse jogo. As histórias não só nos conectam, elas criam esperança. Em D&D há uma regra que diz que não importa o que você esteja tentando fazer,se você rolar um 20, acontece mesmo que pareça impossível. Você pode matar o troll com um único golpe, beijar uma garota ou amar sua mãe.

No fundo de cada um de nós há uma masmorra com um poderoso dragão. Você não sabe se você pode vencê-lo — ou quem sabe fazer amizade com ele — a menos que você tente.

O texto original foi adaptado de uma palestra dada pelo escritor no evento TEDxPiscataquaRiver. A tradução para o português brasileiro foi feita por Raul Rocha da Costa, com revisão de Guilherme Vieira e supervisão editorial de Bruno Cobbi seguindo as políticas de compartilhamento da TED Talks.

Ethan Gisldorf é escritor, crítico, professor e nerd. Autor do premiado livro de memórias Tudo O Que Um Geek Deve Saber: Uma Incrível Jornada Épica Entre RPG, Jogos Online e Reinos Imaginários. Escreve regularmente para o New York Times, Boston Globe, Wired e Salon.

Author: Equipe Roleplayers

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